viernes, junio 9

Por andar e estar confusa, fluxo criativo.

Capítulo I: Das paixões e das loucuras de paixões

Este primeiro capítulo destina-se a “coisa” que me move, àquilo que me faz significar tudo o que eu faço: minhas paixões. Não digo somente em paixões por pessoas, corpos, coisificadas. Sinto paixão como se fosse alimento, como se fosse luz. Pode parecer loucura ou poesia demais, não sei ainda. Mas as paixões são o que tiram o que te apóia, o que te faz sentir as plantas dos pés no chão. E dentro disso, posso afirmar que paixões trazem devires, e devires grandes e intensos. E complexidades e dúvidas. Ainda: caos permanente. Mas que sem este caos, a vida em mim não se faria presente. ”Isso significa que há um primado da transformação sobre o transformado, do movimento sobre o móvel, da mudança sobre os estados” (KASTRUP, 1999, p.37). O importante de descobrir que este caos se nomeia devir, foi que dentro da loucura instaurada tempos em tempos dentro de mim, há um quê de entendimento, de ponto de referência. Não que se perder dentro do caos seja algo abominável, mas saber da existência de uma explicação para algo que me assustava foi principiante de uma confiança maior para não deixar de me permitir perder dentro do caos. Antes de explicar sobre as paixões, sinto-me na obrigação de referenciar uma pessoa que me fez querer ser como sou e assumir sentimentos que podem ser acima da compreensão de quem sente e escreve. Cito então:
Há amigos meus que dizem que eu enlouqueço as pessoas. Eu fico meio triste com isso porque a loucura com um valor pré-determinado confere uma certa opacidade ao texto. A loucura criadora também é paralisante. Jung fez um trabalho sobre a filha de Joyce, que era esquizofrênica e paranóica, mas não tinha o talento do pai. Meu pai (o poeta Apolônio de Almeida Prado Hilst) escrevia lindamente e acabou esquizofrênico e paranóico. Mas esquizofrenia você não pega como uma gripe, você nasce esquizofrênico. Existe na esquizofrenia uma coisa monocórdia. Graças a Deus eu não fiquei assim. Muitos críticos acham meus textos esquizofrênicos porque há certa dificuldade com a pontuação e o fluxo de pensamento dos personagens, o dizer claramente, francamente, mas eu não acho que meus textos sejam esquizofrênicos, eu os leio tão bem... (HILST, 1998).
Hilda Hilst, escritora paulista morta em 2004, entrou na minha vida como luva em mãos com frio. Havia nela um quê de paula-que-queria-sair-mas-não-sabia-como, e explosão! Veio a resposta. Era preciso viver, com intensidade, verdade e sem medo, e colocar nas palavras, fiéis amigas e eterno vício, o que era possível das palavras significarem o sentido no momento. Pois bem, um início de uma grande transformação.

Entendo que as palavras não podem, nem se quisessem poderiam, exprimir tudo àquilo referente à humanez, mas se é um caminho, uma forma, uma maneira de “tirar” o que está do lado de dentro e tentar colocar “para fora”, então que seja utilizado. No meu caso, o melhor caminho que pude seguir, pelo menos até agora. Sinto que falo muito menos do que eu gostaria e sinto muito mais do que poderia dizer em palavras que são diminutas e óbvias. No processo de transformação que veio conseguinte, passei por devires de paixões. Paixões que doeram, machucaram, curaram feridas e abriram muitas outras. Horas sem chão, horas em que se vê que se é e sempre se ficará solitário na vida, mesmo ainda que se compartilhe a vida com alguém/alguns. Assim como em:
Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a quem chama de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam de desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pé dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?
(Hilst, 2004, p.23).

Então eis que no processo das paixões, a transformação tomou conta de um todo maior. Vi-me dentro da passagem, mas não como prisioneira acorrentada, somente na dúvida de quando me permitir ir para o “fora” e quando ficar “do lado de dentro”. Dentro do devir deste momento, concluí em meio a tanta gente, tantos sentimentos, intensidades, confusões e loucuras – sim, loucuras as quais não cabem serem escritas por aqui e levariam tempo para serem digeridas por terceiros que não viveram tal história - que a gente pode construir caminhos, abrir estradas, resolver equações de matemática, fazer experiências de química, provar leis da física, quebrar regras da gramática, reinventar a história. E reinventar a mim mesma. Fazer sempre um mais. Houve neste tempo, uma “revolta” com a acomodação das pessoas com a mesmice e o espanto com o novo, o que podemos fazer ponte com o início do tópico anterior ao texto.

2 comentarios:

Anónimo dijo...

muito bom mesmo seu texto.. não que só me faça sentir bem, mas me aflora uma miríada de sensações, angústias e, sim, friozinhos na barriga de satisfação... tu é muito boa no que faz... as paixões são necessárias, e quando ausentes, a existência se perde, daí entramos num processo de auto-flagelação. A cada paixão que renego me suicido um pouco... mas, é isso aí..
obs.: vc leu meus outros comentários??? eu sei que não sou das mais inteligentes, mas é sincero pelo menos..

Pí Ême. dijo...

Li sim.
Mas como dizer isso se não sei quem você é?

=/