Dos devires e outrens
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Não tão radical assim, um milho mesmo que não passe pelo fogo, nunca é o mesmo. Mas a alusão é válida, continuemos:
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança uma situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso dos remédios. Apagar o fogo. Sem o fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Melhor explicitado agora, o processo pode ser explorado. Vi em outro autor – Rubem Alves – que a transformação era necessária e vital. Por mais que as paixões despertassem dores, a dor faz-se necessária em certos momentos.
“Há um incêndio de angústias e de sons/ Sobre os intentos. E no corpo da tarde/ Se fez uma ferida. A mulher emergiu/ Descompassada no de dentro da outra: Uma mulher de mim nos incêndios do Nada (...)“ (Hilst, 2004, p.51). “Apagar o fogo” não seria o melhor caminho, a melhor estrada. Talvez o mais curto e rápido, ao menos momentaneamente. Mas não. Se eu criticava a dureza e “neurose” das pessoas, eu teria que vencer a mim mesma.
Imagino que a pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina de que ela á capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. (Alves, 1999, p. 62-63).
Através do devir da pipoca, do devir de estourar-se, temos a metáfora chave. Através da dor, vem a transformação. Aceitar e tatear isso como um processo benéfico é mais árduo que o processo em si, no caso, em mim. “Por que eu sinto um sufocamento tão grande vindo de fora pra dentro em mim? Palavras amargas, sentimentos retorcidos, vontade de bater até sangrar. O sofrimento faz parte do constante transbordamento humano, daquilo que é maior do que cabe dentro dos instrumentos de medida que nossas amplaspequenas mentes produziram.” (Abril, 2006). “Não é só o corte que muda a sua configuração. Você vê o sangue, vê aquele vermelho, vê que realmente algo corre dentro de você e pensa: hey! Faça alguma coisa por você mesma!” (Maio, 2006). Chega uma hora, mesmo que haja o medo e a incerteza, precisa-se saltar sem hesitar! Saber lidar com a raiva e a descrença em si mesmo e assim continuar a árdua labuta do ser, estar, viver, presenciar. A certeza do que possa vir “do lado de lá”, seja esse lado qual for, nunca haverá. “(...) se tinha alguma dor e se enquanto doía ela olhava os ponteiros do relógio, via então que os minutos contados no relógio iam passando e a dor continuava doendo. Ou senão, mesmo quando não lhe doía nada, se ficava defronte do relógio espiando, o que ela não estava sentindo também era maior que os minutos contados no relógio.” (Lispector, 1998, p.16). Clarice viu que a dor só passa quando tem que passar, o processo se dá por si mesmo, e o que se sente está acima do compreendimento, do tempo e das palavras. Transgrida o sentido das palavras. O ínfimo significado delas não pode te prender. Há uma largura infinita entre o que elas realmente tentam – sem muito sucesso - representar, e o que elas seriam de verdade.
A dor que toca meu coração é única e real, parte de mim sente a realidade do mundo sentido como pluralidade de intensidades complexas e difusas perdidas num tempo que nos aprisiona... Eu quero libertar o tempo, soltar as amarras, pé no chão, gosto de saliva, gosto do gozo real, cheiro de gente humana, beleza real, nua e crua... A dor que me corrói é a luz que me alimenta. Sentir significa a minha vida. Ser se torna uma predileção entre algumas das opções que tive. Alguns vivem, outros são. Não sei sempre viver... Eu sei mais ser, compreende? Um contraponto, mas se visto de certo olhar, é uma concordância:
Sinceramente? Eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.(...) É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que digo. (Lispector, 1998, p.21)
A partir do momento em que entendi de verdade, leia-se entendimento como aceitação teórica e sinestésica do processo, resolvi me entregar a todo o tipo de intensidade provinda de tal momento da vida. Clarice explica o ponto cego da minha “teoria”. Não só sei sentir, como também sei viver. Pois hão vários outrens dentro de mim mesma. A minha identidade não precisa ser afirmada o tempo todo. Posso me permitir estar na passagem, como prisioneira ou não. Hão de haver “estações” pontuais do trem da vida os quais me prenderão, ou me deixarão esperando, ou simplesmente irão correr como trem bala. O que posso fazer é não querer controlar em cima desses momentos futuros, não padronizar ações e resoluções.
miércoles, julio 5
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1 comentario:
artista altista das palavras.
^^
queria saber escrever =/
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