domingo, julio 9

Parte III

Da efemeridade e eternidade: momentos infinitos

Quando eu pareço não estar bem, na verdade, este é o meu estado em mim mesma que mais me gosto e me encontro. Quando estou perdida e tudo parece sem sentido e vão, eu lembro e sinto somente o que realmente importa. Eu tenho vontade de chorar, mas isso me alegra! Responder ao que sucita minha inquietude, alimentar o caos presente. Fome de palavras ouvidas, vômito de palavras cuspidas pela mente. Faz algum sentido? Alimentar a besta dentro de você, a boa besta, a ágil, que te impulsiona para o amanhã que já chegou. Que estou dizendo? Devaneios das minhas loucuras! Minha insensatez! “Viver é um negócio muito perigoso...” (Rosa, 2001, p.26). Mas no perigo que há a vida, no perigo que achamos os momentos de real encontro, de embate de forças, do universo mesmo conspirando a favor e contra!

Não é claro uma ode a loucura, ou a banalização de tudo, não é um “oba-oba”. Mas uma celebração – sim, talvez com exagero – a uma parte em nós que grita e precisa achar novo território, que precisa fazer um lar dentro de nós e nossos outrens do lado de dentro (quem sabe também de fora?). Então, de cima das nuvens, dá pra ver bem melhor o que está do lado de dentro. Por cima do que é terreno, dá pra pensar mais desconexo, mais solto, mais celestialmente, universalmente. A gente anda é na superficialidade, anda nas beiradas, nas periferias dos sentimentos... Vontade enorme de nunca morrer. Acho que não terei tempo suficiente em uma só vida pra experienciar e fazer tudo o que quero fazer. Ser intenso é difícil! Tirar o medo e ter coragem de não tolir os excessos é algo que nem todos têm coragem. Intensidade. Eu vejo essa palavra em todos os âmbitos de minha vida. Falar de coisas que são necessárias para uma vivência mais humana, mais vida mesmo, e eu já as tenho! E eu não me acho idêntica a mim mesma - identidade - se não for assim! Faço-me e me desfaço, renasço e morro a cada dia, mas sempre intensa. Mais Clarice? Sempre!

A liberdade que às vezes sentia. Não vinha de reflexões nítidas, mas de um estado como feito de percepções por demais orgânicas para serem formuladas em pensamentos. Às vezes, no fundo da sensação tremulava uma idéia que lhe dava leve consciência de sua espécie e de sua cor.

Assim como em um processo de paixão descomedida e “desrrazoada” - e é aí a hora que meus pensamentos devaneiam como se tivessem vida própria, como se eu não os controlasse, como se não fosse eu. E me olho por cima da situação, saio de mim, me fotografo. E há o silêncio que antecede a novamente palavra -, escrevi: “(...) Sim, eu queria me colorir com nossas cores hoje, mas não vou ficar reclamando pelo acaso não ajudar sempre. Eu gosto muito do seu sorriso. Eu gosto muito do meu sorriso, e mais ainda de quando a gente encontra sorrisos num beijo. (and baby, you can turn me on). Ai que saudade dos dias. Dos dias, dos dias. Daqueles dias. Eu sei que você gosta do meu jeito, nem adianta ficar aí se escondendo. No stress, no fights. Está tudo ficando pra trás. Eu só quero festejar. Enfeitar-me sempre pra te ver. Vestir meu melhor eu. Perfumar tudo tudo tudo. Sempre cheirosona, sempre exalando perfumes, sempre... E você diria: linda. E aquelas outras palavras e palavrões do jeito que só você sabe dizer. E seria Setembro pra sempre. No time to cry. Por isso me chamam de Carey. Por isso eu me esquento ao sol das manhãs, mas sem o corpo nunca haverá calor completo. E eu diria: vem logo! E a gente ficaria num silêncio que não me dói nem um pouco. Na contemplação divina. No olho olho olho. E te acarinho, e te acolho, e te quero por perto. Por perto, por dentro, por carinho, por desejo, por amor, por loucura, por desrazão. Por mim.” (Setembro, 2005).

O estado para onde deslizava quando murmurava? Eternidade. O próprio pensamento adquiria uma qualidade de eternidade. Aprofundava-se magicamente alargava-se, sem propriamente um conteúdo e uma forma, mas sem dimensões também. A impressão de que se conseguisse manter-se na sensação por mais uns instantes teria uma revelação – facilmente, como enxergar o resto do mundo apenas inclinando-se da terra para o espaço. Eternidade não era só o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de não poder contê-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e também era eterno um sentimento de pureza absoluta, quase abstrato. Sobretudo dava idéia de eternidade a impossibilidade de saber quantos seres humanos se sucederiam após seu corpo, que um dia estaria distante do presente com a velocidade de um bólido.

Por aqui, tentarei numa pausa do fluxo, refletir sobre o fluxo em cima das palavras claricianas. Traz uma noção de tempo, que muitas vezes, e em muitos textos – minhas válvulas de escape – trouxe como problemática. Por que afinal, se prender a algo que é convenção? Pra que medir a eternidade? O que importa no fim das contas é o momento e como se sente e vive este. Poder ser mais até que o corpo, mais que a cabeça pensante. Sair da idéia reducionista que tudo pode ser explicado e solucionado. Pude ver, voltando a remeter o primeiro tópico, ao longo da minha curta vida acadêmica, que graças a Deus (sem querer referenciar nada muito exato, mas agradecendo como forma de expressão!) que muitas pessoas pensaram o que eu penso! Bom no sentido de não achar que o que eu penso é pouco e diminuto e ver que existem modos de vida de outras pessoas que também se baseia no “mais”. E tudo se transforma de novo em intensidade, em momentos em que não me entendo, momentos que quero que sejam só o que são, sem nenhuma explicação, sem ninguém por perto para poder dizer está certo, está errado.

Definia a eternidade e as explicações nasciam fatais como as pancadas do coração. Delas não mudaria um termo sequer, de tal modo eram sua verdade. Porém mal brotavam, tornavam-se vazias logicamente. Definir eternidade como quantidade maior que o tempo que a mente humana pode suportar em idéia também não permitiria, ainda assim, alcançar sua duração. Sua qualidade era exatamente não ter quantidade, não ser mensurável e divisível porque tudo o que podia medir e dividir tinha um princípio e tinha um fim. Eternidade não era a quantidade infinitamente grande que se desgastava, mas eternidade era sucessão. (Lispector, 1998, p. 43-44).

Termino, então, não terminando. Onde na verdade, este trabalho não teve início nem fim. Assim como um círculo, assim como uma reta, assim como o infinito. Único ponto que tenho de ressalvas: um viva a liberdade de expressar-se - agradeço a oportunidade de ter a minha “voz” escrita e lida com atenção e um viva ao que possa ser infinito, livre e maior. Dentro da loucura, dentro da “normalidade”, dentro do devir, da passagem, da pessoa, do tempo, enfim. Fin.

4 comentarios:

Anónimo dijo...

Mais! é assim que quero, ainda que não o faça.. cada vez que me controlo, que tento ser comedida, a dor da não experimentação me aflige, a dor de saber quão covarde sou.. se, por vezes, me dispo do pudor, é porque, bem sei, nessas horas me respeito mais, ainda que nem sempre a entrega seja benéfica. intensa e crua, é assim a rua que quero construir pra mim.. A superficialidade dos sentimentos é a superficialidade da vida, é tão simples quando não há a entrega, o mais, a intensidade.. é muito mais simples ser alguém, sempre ser alguém. o mesmo alguém, com cheiro, reação, gosto, medo, vontade, atitude e gosto sempre igual. é muito simples se vestir sempre da mesma pessoa. manter a farsa forever.vê se é?? difícil é saber lidar com a pluralidade singular de cada um. difícil é renegar a roupas bem quistas, que lhe fazem ser aceita, mas que lhe apertam.. difícil é renegar a roupa da menina exemplar que lhe vestem... Mas agora, você me encorajou ao MAIS. sabe, ninguém tem a obrigação de "ser" nada. todos podem se permitir estar.. sempre estar...
Desculpa os incômodos que lhe causei, me arrependi. Você é uma pessoa especial. Pra minha vida especialmente.. Não sei como te achar, e nem sei se tenho coragem para fazê-lo. Então despeço-me, com pesar e dor, mas satisfeita.. Foi uma troca intensa e válida, pelo menos pra mim.
Gostaria de uma resposta...

Pí Ême. dijo...

Você tem como me achar.
Mandar um email?
Pode ser um começo.
Eu gostaria.


paularangel@yahoo.com


Fica aí, está "in your hands".


E eu?

Eu espero.

Jules dijo...

^^

pessoas desconhecidas.
:/

eu me sinto cansado.
dormir.
e estudar mais.
e palestra a tarde.
e depois férias.
e depois esquecer que a ufes existe.

Felipe dijo...

pois é, nina poua...
li, li e li.
pensei em um bocado de muitas coisas. melhor, troque a palavra "pensei" por "senti", sim?
vou deixar aqui o q senti, não em ordem cronológica:
fazia um bom tempo q num passava pelos seus escritos. um bom tempo mesmo. num queria fazer elogios vazios, não gosto de fazer elogios vazios. então aí vai um bem cheião: ah, paula maria! continuo gostando bastante de tudo aquilo q vc escreve! da parte I à III foi ficando cada vez mais sutil e mais belo! de algo um poquim parecido com coisas acadêmicas foi escapando para cada vez mais próximo do q dizem q os artistas fazem.
pois é, moça. acho q já te disse isso, q vc tem alma de artista. não sei o q vc vai fazer com essa alma, pq a dor dói mais nesses tipos anímicos. mas incrível tb o q esses tipos podem fazer com uma dor q para nada pode servir à hipocondríaca ciência de nossos dias. por isso algo em mim gosta bastante de vc, desse devir artístico q circula em suas veias.
outra coisa q senti tb foi um certo pesar, um certo desconforto de nunca ter conseguido trocar meia dúzia de palavras com vc. parece q sempre q conversamos não encontramos sintonia. isso é uma pena!
o desconforto q vc sente com a palavra, a traiçoeira palavra, não tem? compartilho um bocado! tanto q como vc, também copiei no meu caderno aquela citação q vc deixou q a Joana faz no Perto do Coração Selvagem sobre o sempre gigantesco e traiçoeiro abismo entre o q se fala e o q se sente.
pois é, paula. q bom q te conheci por aqui! aqui eu me deleito muito de suas palavras!
pois é, paula. uma pena q num consigo sentar pra trocar meia duzia de palavras com vc. será q é por causa do traiçoeiro e gigantesco abismo q separa o q dizemos do q sentimos?
enfim, acho q já disse um bocado, né?
só deixo mais uma vez registrado q pra mim, e só posso dizer por mim mesmo. essa sutil, dolorida e encantadora tormenta q tanto me chamou atenção por detrás de seus olhos qdo te vi no fotolog pela primeira vez não pode ser apagada não. apaziguada sim, para q a existência não se consuma de vez, mas sempre intensa e produtora dessas coisas q chamamos de Arte.